Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura
(FAO/ONU) apontam que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos são perdidos
ou desperdiçados anualmente em todo o mundo. Desse total, 54% dos
descartes acontecem nas fases de produção, manipulação, pós-colheita e
armazenagem, enquanto 46% ocorrem durante o processamento, distribuição e
consumo. De acordo com a equipe da revista Hortifruti Brasil, do Cepea
(Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, uma
das formas de conter o desperdício – descarte intencional de alimentos –
é incentivar o consumo de produtos fora do padrão. Porém, no mercado
doméstico, o maior desafio é reduzir as perdas, que ocorrem por falhas
não propositais.
Segundo os pesquisadores do Cepea, o montante de frutas e hortaliças
descartado no Brasil e na Europa é semelhante, mas ocorrem em etapas
distintas. Enquanto por aqui as maiores perdas são durante o
processamento, manuseio e armazenamento, no cenário europeu é o alto
nível de exigência do consumidor que gera muito desperdício. Ou seja, no
Brasil temos mais perdas e na Europa impera o desperdício.
No mercado doméstico, há bom destino para as frutas e hortaliças fora do
padrão estético, pois os consumidores são menos exigentes. Segundo
colaboradores do Cepea, também há maior facilidade no escoamento dos
produtos “feios” nas cadeias que já contam com padronização e
classificação, uma vez que já existe um mercado certo para a parcela
fora do especificado. Dentre os destinos dos produtos “feios”, os
principais são restaurantes/lanchonetes, indústrias e mercados locais de
áreas com população de menor poder aquisitivo. De acordo com a
pesquisadora do Cepea Renata Pozelli Sabio, quando não se consegue
comercializar os alimentos “feios”, estes são doados ou destinados para
ração animal. “Somente uma pequena parte é propriamente desperdiçada”,
explica.
Dentre as culturas em que é mais comum o alimento apresentar alguma
imperfeição, mas com qualidade para o consumo, estão as de batatas,
cebolas, cenouras, tomates, bananas, laranjas, maçãs, mangas e mamões.
Além disso, há diversas iniciativas para incentivar o consumo de
alimentos como a “Mesa Brasil”, do Sesc, o Programa “Sem Forma”, do
Carrefour e o Festival Disco Xepa, que reúne chefs de cozinha que
preparam e servem pratos aos público presente com alimentos “feios”
descartados por supermercados e feiras livres. Porém, as iniciativas
apresentadas, apesar de interessantes, ainda são bem restritas e não
combatem as perdas, que são o principal problema no Brasil.
Mesmo o desperdício sendo menor no Brasil que na Europa, os desafios
nacionais são muito maiores. O País precisa reduzir suas perdas tanto na
produção quanto no pós-colheita e distribuição, que correspondem à
maior parte do descarte de frutas e hortaliças. “A ineficiência da nossa
logística, por exemplo, com falhas na cadeia do frio, tem grande
responsabilidade sobre esses resultados. Está claro que a melhora no
aproveitamento do que tiramos de nosso solo é um desafio que envolve
produtores, distribuidores, comerciantes e consumidores”, finaliza a
pesquisadora.