SÃO PAULO (Reuters) - A área plantada com soja no Brasil deve ser
reduzida em 300 mil hectares em 2015/16, ante o recorde de 31,5 milhões
de hectares de 2014/15, disse nesta quarta-feira a consultoria
Agroconsult, e a queda pode ser ainda maior devido o atual cenário de
custos elevados e de escassez de crédito para o setor agrícola.
A
redução da área plantada, se confirmada, seria a primeira em nove anos
no país que se tornou o maior exportador global da oleaginosa e o
segundo maior produtor mundial, atrás apenas dos Estados Unidos.
A
Agroconsult estima que, no atual contexto de cortes de gastos do
governo federal e maior aversão ao risco por parte dos bancos privados,
poderia haver um déficit de 10,7 bilhões de reais entre o volume de
crédito disponível (84,1 bilhões de reais) e o necessário (94,8 bilhões
de reais) para custear o plantio de soja, milho, algodão e trigo em
2015/16.
A escassez de recursos é um dos principais fatores que
pode levar a uma redução ainda maior na área semeada com soja na próxima
temporada.
O plantio de 2015/16 começa apenas em meados de
setembro e outubro desde ano, mas muitas compras de insumos são
realizadas já na metade do primeiro semestre.
Produtores e
revendas de insumos têm reclamado de dificuldades para obter recursos no
Banco do Brasil, principalmente no Centro-Oeste, para negociar
fertilizantes e defensivos para a nova temporada.
“A conta não
está fechando... pode ser uma redução (de área) maior”, disse o diretor
da Agroconsult, André Pessôa, em evento em São Paulo. “Uma das
consequências da incerteza, associada à questão de crédito, é que tem
muitos produtores em dúvida sobre o que fazer.”
Os recursos
necessários para o plantio das quatro culturas atingiu 83,5 bilhões de
reais na safra 2014/15, sendo que 71 por cento deste volume foi
financiado de alguma forma. Apenas 29 por cento veio de capital próprio,
segundo a consultoria.
A Agroconsult trabalha com um cenário de
queda de 20 por cento na oferta de crédito para a safra 2015/16,
praticamente compensado pelo lucro embolsado pelos produtores em
2014/15.
O aumento das despesas na nova temporada, mesmo com o
plantio de uma área menor de soja, se explica pela elevação nos custos
com insumos, muitos deles importados, cujos preços estão sendo
fortemente afetados pela alta do dólar.
No norte de Mato Grosso,
por exemplo, o custo de produção de um hectare deverá saltar 13 por
cento em relação à safra anterior, para 2.187 reais.
NEGÓCIOS TRAVADOS
O
Banco do Brasil, principal financiador do agronegócio brasileiro e
operador de linhas de crédito subsidiado pelo governo, indicou nesta
quarta-feira que está sendo cuidadoso na concessão de crédito para a
próxima safra.
Uma das consequências do crédito apertado neste
momento, tanto por parte dos bancos públicos como privados, é a baixa
comercialização de insumos.
“Essa situação é clara no cerrado
(Centro-Oeste) e um pouco suavizada no Sul... Ainda tem muita decisão
para o agricultor (do cerrado) tomar e o momento de incerteza pressiona
toda a cadeia”, disse Mauro Alberton, diretor de estratégia de marketing
de culturas e portfolio da Bayer, uma das principais empresas de
agroquímicos no Brasil.
No Centro-Oeste as propriedades estão
mais distantes dos centros de distribuição e normalmente são maiores,
demandando grandes carregamentos de insumos. Por isso, dizem os
especialistas, há uma necessidade maior de fechamento antecipado, no
máximo até abril ou maio, dos negócios para o plantio da nova safra.
“Em
função das incertezas e da escassez de crédito, é muito provável que
uma boa parte dos produtores perca essa janela... Dá para resolver o
problema, mas vai ficar muito mais complicado para a indústria, para o
canal de distribuição e, para os produtores, pode significar custos mais
altos”, destacou Pessôa.