O mercado de trabalho do agronegócio brasileiro apresentou um cenário de contrastes no primeiro trimestre de 2026. Enquanto as atividades desenvolvidas diretamente dentro das propriedades rurais incorporaram cerca de 190 mil trabalhadores em comparação com o mesmo período do ano passado, o conjunto da cadeia registrou redução no número total de pessoas ocupadas.
O crescimento da ocupação dentro da porteira foi de 2,5% em um ano e ocorreu tanto na agricultura quanto na pecuária. O avanço ajudou a reduzir o impacto das perdas registradas nos demais segmentos ligados ao agronegócio, especialmente nos serviços e nas agroindústrias.
Os dados fazem parte do levantamento sobre o mercado de trabalho do agronegócio elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Além da geração de novas ocupações nas propriedades rurais, o período também foi marcado pelo aumento real dos rendimentos. Considerando todas as categorias de trabalhadores, a massa de rendimentos do agronegócio atingiu R$ 68,90 bilhões no primeiro trimestre de 2026, crescimento real de 2,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, já descontada a inflação.
Agricultura e pecuária sustentam o emprego dentro da porteiraA produção agropecuária foi responsável pelo principal movimento positivo observado no mercado de trabalho do setor. A agricultura ampliou em 1,8% o número de pessoas ocupadas, enquanto a pecuária registrou crescimento de 3,7%.
Os números mostram que, mesmo diante de juros elevados, margens pressionadas e dificuldades de acesso ao crédito rural, a produção dentro das fazendas continuou demandando mão de obra no início de 2026.
Entre as atividades agrícolas, o cultivo de café apresentou um dos maiores avanços na ocupação. O número de trabalhadores ligados à atividade cresceu 26,9% em relação ao primeiro trimestre de 2025.
A cana-de-açúcar também registrou expansão significativa, com crescimento de 13,9% no contingente de pessoas ocupadas. Já a horticultura apresentou avanço de 5,6%.
Na pecuária, os dados chamam atenção para o forte crescimento de algumas atividades específicas. A aquicultura liderou o avanço, com aumento de 40,8% no número de ocupados.
A criação de aves registrou crescimento de 26,4%, enquanto a suinocultura ampliou a ocupação em 18,7%. Outras atividades pecuárias apresentaram expansão de 30,6%.
Os percentuais, no entanto, não significam necessariamente a criação de empregos formais com carteira assinada. O levantamento considera diferentes formas de ocupação existentes no mercado de trabalho brasileiro.
Ainda assim, os dados indicam que a produção primária conseguiu absorver trabalhadores em um momento em que outros elos da cadeia do agronegócio reduziram seus quadros.
Agronegócio ainda emprega quase 28 milhões de brasileirosApesar do desempenho positivo dentro das propriedades rurais, o número total de pessoas ocupadas no agronegócio brasileiro apresentou retração de 1% em comparação com o primeiro trimestre de 2025.
A redução corresponde à saída de aproximadamente 267,3 mil trabalhadores da cadeia produtiva.
Mesmo com a queda, o agronegócio manteve 27,79 milhões de pessoas ocupadas no primeiro trimestre de 2026. O número representa 25,73% de toda a população ocupada do Brasil.
Na prática, isso significa que aproximadamente um em cada quatro brasileiros que trabalham possui alguma ligação direta ou indireta com o agronegócio.
O cálculo não considera apenas os trabalhadores que atuam dentro das fazendas. A estrutura do agronegócio também inclui os setores responsáveis pelo fornecimento de insumos, máquinas e tecnologias, além das agroindústrias e dos serviços relacionados ao transporte, armazenamento, comercialização e distribuição da produção.
Esse resultado reforça o peso econômico e social do setor para o país. Mesmo em um período de retração no número total de ocupados, o agronegócio continua sendo um dos principais responsáveis pela geração de renda e oportunidades de trabalho no Brasil.
Serviços e agroindústrias concentram as perdas de trabalhadoresA redução do emprego no agronegócio ficou concentrada principalmente fora das propriedades rurais.
Os agrosserviços perderam cerca de 308 mil trabalhadores, o equivalente a uma retração de 2,9% em relação ao primeiro trimestre do ano passado.
Nas agroindústrias, a queda foi de aproximadamente 148,5 mil pessoas ocupadas, redução de 3,1%.
O segmento responsável pela produção e fornecimento de insumos também registrou retração, embora em menor intensidade. A redução foi de 1,2%, o que corresponde a cerca de 3,8 mil trabalhadores.
Sem as quase 190 mil novas ocupações geradas dentro das propriedades rurais, a redução total do emprego no agronegócio brasileiro teria sido significativamente maior.
O contraste entre os resultados evidencia que os diferentes elos da cadeia atravessam momentos distintos. Enquanto agricultura e pecuária continuam demandando trabalhadores, setores ligados aos serviços e à transformação industrial da produção passaram por um período de ajuste.
Renda do trabalhador do agronegócio cresce acima da inflaçãoOutro resultado positivo observado no levantamento foi a valorização da renda dos trabalhadores do agronegócio.
O rendimento médio mensal dos empregados do setor chegou a R$ 2.886 no primeiro trimestre de 2026. O valor representa crescimento real de 4,8% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Entre os empregadores, a renda média mensal alcançou R$ 8.961, avanço real de 9,7%.
A massa de rendimentos dos empregados e demais trabalhadores assalariados atingiu R$ 43,16 bilhões, crescimento real de 1,4%.
Entre os trabalhadores por conta própria, a massa de renda chegou a R$ 16,70 bilhões, alta de 3,5%.
Já a massa de renda dos empregadores aumentou 7,5%, alcançando R$ 9,05 bilhões.
No total, a massa de rendimentos do agronegócio brasileiro somou R$ 68,90 bilhões, demonstrando que, mesmo diante da redução no número total de ocupados, a renda gerada pelo setor continuou crescendo em termos reais.
Trabalho por conta própria é o único a crescerEntre as diferentes posições na ocupação, o trabalho por conta própria foi o único grupo a apresentar crescimento.
O segmento incorporou aproximadamente 120,2 mil pessoas em um ano, alta de 1,8%.
O avanço ajudou a compensar parte das perdas observadas entre empregados, empregadores e trabalhadores familiares auxiliares.
No entanto, o crescimento do trabalho por conta própria exige uma análise mais ampla.
Por um lado, pode refletir o fortalecimento do empreendedorismo rural e urbano ligado ao agronegócio, além do crescimento da prestação de serviços especializados.
Por outro, também pode indicar a substituição de vínculos tradicionais de trabalho por modelos de ocupação com menor estabilidade ou proteção trabalhista.
A transformação do mercado de trabalho do agronegócio acompanha mudanças estruturais observadas em toda a economia brasileira, com maior presença de trabalhadores autônomos, prestadores de serviços e pequenos empreendedores.
Agronegócio aumenta demanda por profissionais qualificadosO levantamento também aponta uma mudança importante no perfil da mão de obra demandada pelo setor.
O agronegócio incorporou aproximadamente 72,9 mil profissionais com ensino superior no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 1,6% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A expansão está relacionada à crescente necessidade de qualificação profissional em um setor cada vez mais tecnológico.
A agricultura de precisão, o uso de inteligência de dados, novas tecnologias de produção, automação, gestão financeira, sustentabilidade e inovação ampliam a demanda por profissionais especializados.
Esse movimento mostra que o agronegócio brasileiro continua passando por uma transformação que combina a manutenção de atividades tradicionais com a incorporação de novas tecnologias e conhecimentos técnicos.
A qualificação profissional, nesse cenário, tende a se tornar um fator cada vez mais importante para a competitividade das propriedades rurais e das empresas que integram a cadeia produtiva.
Juros altos e crédito rural ainda preocupam o setorPara o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende, os dados do primeiro trimestre mostram dois movimentos diferentes dentro da cadeia.
Segundo ele, enquanto o conjunto do agronegócio passou por um processo de ajuste após sucessivos períodos de crescimento da ocupação, principalmente nos serviços e nas agroindústrias, as atividades desenvolvidas dentro das propriedades continuaram criando oportunidades.
“A cadeia como um todo passou por um ajuste depois de sucessivos recordes de ocupação, principalmente nos serviços e nas agroindústrias. Dentro das propriedades, porém, agricultura e pecuária contrataram mais trabalhadores, elevaram a presença de profissionais qualificados e contribuíram para o crescimento real da renda gerada pelo setor”, afirmou.
Rezende destaca, porém, que o crescimento da ocupação dentro das propriedades não deve ser analisado de forma isolada.
“Os quase 190 mil trabalhadores incorporados pela produção dentro das propriedades mostram que o campo continua gerando oportunidades, mas o resultado não pode ser analisado isoladamente. O agronegócio como um todo perdeu mais de 267 mil pessoas ocupadas em um ano, com retração principalmente nos serviços e nas agroindústrias. É um alerta de que nem todos os elos da cadeia atravessam o mesmo momento”, afirmou.
Entre os principais desafios enfrentados pelos produtores estão os juros elevados, a redução das margens de rentabilidade e o endividamento rural.
“Emprego depende de investimento, e o produtor está enfrentando juros elevados, margens menores e um endividamento que limita sua capacidade de contratar, comprar máquinas e ampliar a produção. A renegociação das dívidas rurais precisa sair do papel e chegar efetivamente às propriedades, acompanhada de crédito acessível, seguro rural e condições para que produtores economicamente viáveis retomem seus projetos”, acrescentou.
Recuperação do investimento pode fortalecer toda a cadeiaO desempenho do mercado de trabalho do agronegócio no primeiro trimestre de 2026 reforça a importância das condições econômicas enfrentadas pelos produtores rurais.
Quando o produtor possui acesso a crédito rural, condições para investir e segurança para ampliar a produção, os efeitos ultrapassam os limites da propriedade.
O aumento dos investimentos no campo movimenta empresas fornecedoras de máquinas e insumos, fortalece o transporte, amplia a demanda por armazenamento e comercialização e impulsiona as agroindústrias.
Para Isan Rezende, a redução observada nos serviços e na indústria deve servir como sinal de alerta para toda a cadeia.
“Se o Brasil não resolver esses gargalos, a redução observada nos serviços e na agroindústria pode alcançar outras partes da cadeia. O país precisa combinar crédito, segurança jurídica, infraestrutura, inovação e qualificação profissional. Quando o produtor recupera capacidade de investir, o efeito não fica apenas dentro da porteira: alcança o comércio, o transporte, a indústria e milhares de famílias que dependem do agronegócio”, concluiu.
Os números do primeiro trimestre mostram, portanto, um agronegócio dividido entre avanço e retração. De um lado, a agricultura e a pecuária seguem ampliando a ocupação e elevando a renda dos trabalhadores. De outro, os serviços e as agroindústrias enfrentam uma redução no número de pessoas ocupadas.
A evolução do emprego no campo ao longo dos próximos meses dependerá, em grande parte, da capacidade do setor de superar desafios como o alto custo do crédito, o endividamento dos produtores e a necessidade de ampliar os investimentos.
Por enquanto, os dados deixam claro que, mesmo em um cenário de ajuste, o campo continua sendo um dos principais motores da geração de trabalho e renda no Brasil. Com quase 28 milhões de pessoas ocupadas e participação superior a um quarto de todos os trabalhadores do país, o agronegócio mantém sua posição estratégica na economia brasileira e continua sendo fundamental para milhares de famílias que dependem direta ou indiretamente da produção rural.