O aumento expressivo dos preços dos fertilizantes no mercado internacional voltou a acender um sinal de alerta para o agronegócio brasileiro. Com a aproximação do período de compra dos insumos para a safra 2026/27, produtores rurais acompanham de perto a valorização da ureia, do fosfato monoamônico (MAP) e do cloreto de potássio, três dos principais fertilizantes utilizados nas lavouras nacionais.

Os números mais recentes mostram uma aceleração significativa nos custos desses insumos. A ureia granular entregue no Brasil registrou valorização de aproximadamente 50% em maio, quando comparada à média observada nos dois primeiros meses de 2026. No mesmo período, o MAP avançou quase 30%, enquanto o cloreto de potássio apresentou alta próxima de 10%.

Embora não exista, até o momento, risco de desabastecimento, especialistas apontam que a continuidade desse movimento poderá aumentar os custos de produção da safra de grãos de 2026/27, principalmente para culturas mais dependentes da adubação nitrogenada.

Mercado internacional impulsiona preços dos fertilizantes

A escalada dos fertilizantes tem origem em diversos fatores que afetam simultaneamente a cadeia global de produção e distribuição. Entre eles, destaca-se o aumento dos custos energéticos, especialmente do gás natural, matéria-prima essencial para a fabricação de amônia e ureia.

Como a produção desses fertilizantes depende diretamente da disponibilidade e do preço do gás natural, qualquer instabilidade em grandes regiões produtoras acaba repercutindo rapidamente nos custos industriais e também no transporte internacional.

Além do aumento da energia, o mercado acompanha incertezas relacionadas à produção mundial, disponibilidade de cargas, logística marítima e mudanças no fluxo comercial entre os principais países exportadores.

Esse conjunto de fatores elevou a volatilidade dos preços justamente no momento em que diversos países iniciam suas compras para as próximas temporadas agrícolas.

Brasil continua altamente dependente das importações

Apesar de ser uma das maiores potências agrícolas do planeta, o Brasil ainda depende fortemente das importações para abastecer seu mercado de fertilizantes.

Grande parte dos nutrientes utilizados nas lavouras brasileiras vem do exterior, tornando o país sensível às oscilações do mercado internacional.

Nos últimos anos, a Rússia permaneceu como principal fornecedora de fertilizantes para o Brasil, seguida pela China e pelos países do Oriente Médio.

Entretanto, quando se trata especificamente dos fertilizantes nitrogenados, a participação do Oriente Médio ganha ainda mais importância.

A região responde por cerca de um terço das importações brasileiras dessa categoria e concentra aproximadamente 34% do comércio mundial de ureia, tornando-se um dos principais polos globais de produção.

Essa concentração faz com que qualquer instabilidade envolvendo fornecedores ou rotas comerciais seja rapidamente refletida nos preços internacionais.

Não há previsão de falta de fertilizantes

Apesar do aumento dos preços, o cenário atual não indica escassez de fertilizantes no mercado brasileiro.

O país possui uma rede diversificada de fornecedores internacionais e os importadores conseguem, em muitos casos, redirecionar suas compras para outras origens conforme disponibilidade, prazo de entrega e competitividade dos preços.

No entanto, essa mudança nem sempre ocorre sem custos adicionais.

Novas rotas marítimas podem significar viagens mais longas, aumento dos fretes, maior tempo de entrega e disputa por cargas disponíveis, fatores que acabam pressionando ainda mais os custos de aquisição dos insumos.

Safra de 2026 tende a sofrer impacto limitado

A expectativa é de que os efeitos sobre a produção agrícola de 2026 permaneçam relativamente controlados.

Isso acontece porque uma parcela importante dos fertilizantes utilizados nesta temporada já havia sido importada antes da intensificação das recentes pressões no mercado internacional.

Os estoques existentes também ajudam a reduzir impactos imediatos.

Entretanto, o cenário muda quando o foco passa para a formação da safra 2026/27, cujo período de compras ocorre principalmente durante o segundo semestre.

Caso os preços internacionais permaneçam elevados por vários meses, o reflexo deverá aparecer diretamente nas planilhas de custo dos produtores rurais.

Milho aparece como a cultura mais vulnerável

Entre as principais culturas brasileiras, o milho tende a ser o mais sensível ao aumento dos fertilizantes nitrogenados.

Isso ocorre porque a cultura exige elevadas quantidades de nitrogênio ao longo de seu desenvolvimento, tornando a ureia um dos principais componentes do custo operacional.

A disponibilidade adequada desse nutriente influencia diretamente o potencial produtivo da lavoura.

Dessa forma, qualquer aumento significativo no preço da ureia pode elevar de forma expressiva o custo por hectare cultivado.

Além disso, reduzir a adubação para economizar pode comprometer o rendimento final e diminuir a rentabilidade da produção.

Soja possui vantagem biológica, mas não escapa dos custos

Embora a soja também necessite de nitrogênio para seu desenvolvimento, a cultura apresenta uma característica que reduz sua dependência dos fertilizantes minerais.

A fixação biológica do nitrogênio, realizada por bactérias associadas às raízes da planta, permite que parte significativa dessa necessidade seja suprida naturalmente.

Essa tecnologia consolidou-se como uma das maiores vantagens competitivas da agricultura brasileira.

Mesmo assim, a soja continua exposta ao aumento dos fertilizantes fosfatados e potássicos, além de sofrer impactos indiretos provocados pelo aumento dos custos de transporte, combustíveis, defensivos agrícolas e demais insumos utilizados na produção.

Custos já mostram diferença entre soja e milho

As estimativas mais recentes de custos agrícolas já demonstram comportamentos distintos entre as principais culturas.

Na soja, o custeio estimado para a safra 2026/27 foi calculado em aproximadamente R$ 4.207,88 por hectare, representando uma leve alta em relação ao ciclo anterior.

Já o custo total de produção alcançou R$ 8.037,13 por hectare, considerando despesas como depreciação, remuneração do capital, máquinas, equipamentos e demais componentes operacionais.

No milho, o cenário mostra crescimento mais intenso.

O custeio foi estimado em R$ 3.686,80 por hectare, enquanto o custo total atingiu R$ 7.303,96 por hectare, refletindo aumentos significativamente superiores aos observados na soja.

Vale destacar que essas projeções foram elaboradas antes da forte valorização registrada pela ureia até maio, indicando que parte da pressão atual ainda não estava totalmente incorporada aos cálculos.

Relação de troca será decisiva para o produtor

Mais importante do que observar apenas o preço do fertilizante é analisar a chamada relação de troca.

Na prática, o produtor avalia quantas sacas de soja, milho ou outra commodity agrícola são necessárias para adquirir uma tonelada do fertilizante.

Se o preço do grão subir na mesma proporção que o insumo, o impacto financeiro pode ser reduzido.

Por outro lado, caso os fertilizantes continuem se valorizando enquanto as cotações futuras das commodities permaneçam estáveis ou recuem, o poder de compra do agricultor diminui, pressionando diretamente sua margem de lucro.

Por isso, acompanhar simultaneamente o comportamento dos insumos e das commodities será fundamental durante todo o segundo semestre.

Planejamento ganha importância na safra 2026/27

Além das oscilações internacionais, outros fatores deverão influenciar o mercado brasileiro nos próximos meses.

A evolução do câmbio, o custo do frete marítimo, a movimentação dos portos, a velocidade das importações e a oferta de crédito rural serão determinantes para definir o comportamento dos preços internos.

Produtores com maior capacidade financeira poderão aproveitar oportunidades de compra antecipada, reduzindo parte da exposição às oscilações futuras.

Já aqueles que dependem mais intensamente do financiamento deverão acompanhar atentamente as condições de mercado antes de fechar suas negociações.

Manejo técnico continua sendo a melhor estratégia

Mesmo diante do aumento dos custos, especialistas reforçam que decisões relacionadas à adubação devem ser tomadas com base em critérios técnicos.

A análise de solo continua sendo uma das ferramentas mais importantes para definir doses adequadas de nutrientes, evitando tanto desperdícios quanto deficiência nutricional das plantas.

A substituição de fertilizantes ou a redução indiscriminada das doses pode diminuir o investimento inicial, mas também reduzir o potencial produtivo da lavoura, elevando o custo por saca colhida.

Por isso, o momento exige planejamento, acompanhamento constante do mercado e apoio técnico para equilibrar produtividade e rentabilidade.

Mercado acompanha próximos movimentos

Embora o cenário atual ainda não indique falta de fertilizantes no Brasil, a forte valorização da ureia e de outros nutrientes reforça que a formação dos custos da safra 2026/27 dependerá diretamente do comportamento do mercado internacional nos próximos meses.

Caso as pressões diminuam, parte do impacto poderá ser absorvida pelos estoques existentes, pela valorização das commodities agrícolas ou por uma melhora do câmbio.

Entretanto, se os preços permanecerem elevados durante todo o período de compras, produtores de diversas regiões poderão enfrentar uma safra com custos significativamente maiores, exigindo ainda mais eficiência na gestão da propriedade e nas decisões de investimento.

Nesse cenário, planejamento financeiro, compras estratégicas e manejo agronômico eficiente serão fatores decisivos para preservar a competitividade da agricultura brasileira diante de um mercado global cada vez mais desafiador.