O mercado de feijão no Paraná atravessa um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. Dados divulgados pelo Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), revelam que as exportações de feijão no Paraná registraram uma forte retração no primeiro semestre de 2026, enquanto as importações do grão cresceram de forma expressiva, alterando o equilíbrio da balança comercial estadual.

Entre janeiro e junho deste ano, o estado exportou apenas 11,8 mil toneladas de feijão, uma redução de aproximadamente 65% em comparação ao mesmo período de 2025, quando os embarques alcançaram 33,7 mil toneladas. O desempenho contrasta com o cenário nacional, onde as exportações cresceram cerca de 10%, passando de 135,4 mil para 149,3 mil toneladas.

A combinação entre queda das vendas externas e aumento das importações, principalmente da Argentina, acende um alerta para produtores, cooperativas, tradings e toda a cadeia do agronegócio paranaense.

Paraná segue líder no feijão-preto, mas enfrenta dificuldades

O Paraná mantém sua posição como principal produtor brasileiro de feijão-preto, variedade bastante consumida no mercado interno e tradicionalmente exportada para diversos países da América Latina e Europa.

Entretanto, justamente esse segmento foi o que apresentou o maior recuo nas exportações em 2026.

Segundo o levantamento do Deral, as vendas externas de feijão-preto seco caíram de 38,8 mil toneladas para apenas 16,1 mil toneladas no primeiro semestre, uma redução superior a 58%.

Como a economia agrícola do Paraná possui forte dependência dessa variedade, a retração teve impacto direto sobre a receita gerada pelas exportações estaduais.

Além da redução no volume comercializado, produtores enfrentam um ambiente de maior concorrência internacional e mudanças constantes na demanda dos principais compradores.

Crescimento nacional foi puxado pelo feijão-mungo-preto

Enquanto o Paraná registrava queda nas exportações, outras regiões brasileiras impulsionavam o desempenho nacional.

O destaque foi o feijão-mungo-preto seco, cuja comercialização internacional aumentou significativamente.

Os embarques dessa variedade cresceram 27,2 mil toneladas, atingindo 78,2 mil toneladas no primeiro semestre de 2026.

Grande parte desse avanço foi sustentada pela produção de Mato Grosso, estado que consolidou uma relação comercial importante com a Índia, um dos maiores consumidores mundiais desse tipo de feijão.

Esse movimento explica por que os números nacionais permaneceram positivos, mesmo diante da forte retração observada no Paraná.

Na prática, o crescimento das exportações brasileiras não beneficiou igualmente todos os estados produtores, evidenciando diferenças importantes entre os mercados atendidos por cada variedade do grão.

Perda de compradores preocupa setor

Outro fator apontado pelo Deral é a redução das compras realizadas por países que tradicionalmente adquiriam o feijão paranaense.

Portugal e Guatemala diminuíram significativamente suas importações ao longo do semestre.

Esses mercados haviam assumido parte da demanda anteriormente atendida por México e Venezuela, que reduziram suas aquisições nos últimos anos.

A constante troca de compradores evidencia uma característica que preocupa analistas do setor: a dificuldade de consolidar relações comerciais de longo prazo.

Embora o Paraná demonstre capacidade para abrir novos mercados internacionais, manter contratos permanentes ainda representa um desafio.

Essa instabilidade faz com que os produtores fiquem mais expostos às oscilações da demanda externa, aumentando a vulnerabilidade das exportações estaduais.

Importações da Argentina aumentam fortemente

Enquanto os embarques diminuíram, ocorreu um movimento oposto nas importações brasileiras de feijão.

Entre janeiro e junho de 2026, o Brasil importou 22,3 mil toneladas, contra apenas 4,9 mil toneladas no mesmo período do ano passado.

O crescimento supera quatro vezes o volume registrado em 2025.

Mais de 20 mil toneladas dessas importações entraram no país pelo Paraná e tiveram como origem a Argentina.

Embora o volume ainda esteja distante dos níveis registrados durante a década passada, o aumento foi suficiente para alterar o comportamento da balança comercial estadual.

A entrada de produto argentino amplia a oferta disponível no mercado nacional e pode exercer influência sobre os preços pagos ao produtor brasileiro, especialmente em períodos de maior disponibilidade interna.

Balança comercial fica negativa

A consequência direta desse cenário foi a inversão da balança comercial do feijão no Paraná.

Mesmo mantendo um valor médio de exportação superior ao preço do feijão importado, o estado passou a registrar saldo negativo nas operações internacionais do produto.

Isso significa que o volume adquirido no exterior superou o desempenho das exportações, reduzindo o resultado econômico obtido pelo comércio internacional do grão.

Para especialistas, esse comportamento merece acompanhamento nos próximos meses, principalmente considerando o calendário das próximas safras e o comportamento do consumo interno.

Caso as importações permaneçam elevadas e as exportações não retomem o ritmo histórico, o mercado poderá enfrentar novos desafios relacionados à rentabilidade do produtor.

O impacto para os produtores rurais

A redução das exportações representa mais do que uma simples queda nas estatísticas.

Ela influencia diretamente toda a cadeia produtiva.

Com menos oportunidades de venda ao mercado externo, parte da produção permanece disponível no mercado interno, elevando a oferta e podendo limitar movimentos de valorização dos preços.

Além disso, produtores passam a depender ainda mais da demanda doméstica, que nem sempre consegue absorver toda a produção com preços remuneradores.

Cooperativas, cerealistas e empresas exportadoras também sentem os reflexos da diminuição do fluxo internacional, especialmente aquelas que possuem estruturas voltadas ao comércio exterior.

Mercado internacional continua competitivo

O comércio global de feijão tem apresentado mudanças importantes nos últimos anos.

Novos fornecedores ampliaram sua presença internacional, enquanto grandes consumidores passaram a diversificar seus parceiros comerciais.

Nesse ambiente competitivo, fatores como logística, regularidade de fornecimento, qualidade do produto e estabilidade cambial tornam-se determinantes para conquistar e manter mercados.

O Paraná possui tradição, tecnologia e elevada produtividade na produção de feijão, mas continuará enfrentando forte concorrência de outros estados brasileiros e também de países produtores.

Por isso, fortalecer acordos comerciais duradouros e ampliar a diversificação dos destinos das exportações poderá ser um caminho importante para reduzir a dependência de poucos compradores.

Perspectivas para o segundo semestre

Apesar dos números desfavoráveis registrados na primeira metade do ano, o mercado ainda pode apresentar mudanças ao longo do segundo semestre de 2026.

A evolução da safra brasileira, as condições climáticas, a demanda internacional e o comportamento do câmbio deverão influenciar diretamente as exportações nos próximos meses.

Outro fator que merece atenção é a evolução das importações argentinas.

Caso o fluxo continue elevado, o mercado interno poderá permanecer pressionado, exigindo maior eficiência dos produtores para manter competitividade.

Ao mesmo tempo, oportunidades podem surgir caso novos mercados sejam conquistados para o feijão-preto brasileiro, especialmente em países que buscam diversificar seus fornecedores de alimentos.

Paraná busca recuperar espaço no comércio internacional

Mesmo diante do atual cenário, o Paraná continua sendo uma das principais referências nacionais na produção de feijão.

O estado reúne tecnologia, tradição agrícola, elevada produtividade e uma cadeia produtiva consolidada, fatores que podem favorecer uma recuperação das exportações nos próximos ciclos.

No entanto, os dados do primeiro semestre deixam uma mensagem clara: a competitividade internacional exige adaptação constante, abertura de novos mercados e, principalmente, relações comerciais mais estáveis.

A queda de 65% nas exportações, somada ao aumento expressivo das importações vindas da Argentina, representa um importante sinal de alerta para o agronegócio estadual. A capacidade de reagir a esse novo cenário será decisiva para que o Paraná volte a ampliar sua participação no comércio internacional de feijão, fortalecendo a renda dos produtores e preservando sua posição de destaque no agronegócio brasileiro.