Trigo ganha ritmo no Rio Grande do Sul, mas produtores reduzem área diante de custos elevados e incertezasSemeadura avança em diversas regiões do Estado, porém restrições de crédito, clima e redução dos investimentos tecnológicos impactam o planejamento da safra 2026

A semeadura do trigo no Rio Grande do Sul acelerou nas últimas semanas e já ultrapassa 70% em importantes regiões produtoras do Estado. Favorecidos pelas condições adequadas de umidade do solo e pela expectativa de novas chuvas, os produtores conseguiram avançar com os trabalhos dentro da janela recomendada para implantação da cultura. Apesar do ritmo positivo no campo, o cenário para a safra 2026 segue marcado por cautela, com expectativa de redução da área cultivada em comparação ao ciclo anterior.

De acordo com o Informativo Conjuntural divulgado pela Emater/RS-Ascar, as lavouras já implantadas apresentam, de forma geral, germinação satisfatória, emergência uniforme e desenvolvimento inicial adequado. O desempenho das áreas semeadas demonstra que as condições climáticas têm sido favoráveis para o estabelecimento das plantas, especialmente nas regiões onde as chuvas ocorreram de forma mais regular.

No entanto, mesmo com um início promissor para a cultura, os produtores seguem enfrentando desafios econômicos que têm influenciado diretamente suas decisões de plantio. Entre os principais fatores estão a menor disponibilidade de crédito rural, os altos custos de produção, a volatilidade do mercado e as incertezas climáticas, que aumentam o risco da atividade.

Área de trigo deve encolher na safra 2026

Embora a área oficial ainda esteja em fase de levantamento pela Emater/RS-Ascar, técnicos já observam uma tendência consistente de redução das lavouras de trigo em diversas regiões do Rio Grande do Sul.

A retração ocorre em um momento em que muitos agricultores buscam estratégias para reduzir custos e preservar a rentabilidade das propriedades. Entre as medidas adotadas estão a diminuição do uso de fertilizantes, a redução do pacote tecnológico e o aumento da utilização de sementes salvas, prática que permite reduzir os gastos com a implantação da cultura.

Além disso, parte das áreas inicialmente destinadas ao trigo poderá ser ocupada por culturas alternativas, plantas de cobertura ou mesmo convertida para atividades ligadas à pecuária. Em algumas regiões, produtores têm optado pelo arrendamento das terras ou pela formação de pastagens para criação de bovinos de corte.

Na safra anterior, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul cultivou aproximadamente 1,16 milhão de hectares de trigo, alcançando produtividade média de 2.968 quilos por hectare e produção total de 3,45 milhões de toneladas. Os números colocam o Estado como um dos principais polos produtores de trigo do Brasil.

Bagé registra avanço desigual da semeadura

Na região administrativa de Bagé, a evolução da semeadura ocorre de forma heterogênea entre os municípios.

Em Maçambará, a baixa umidade do solo limitou os trabalhos, que avançaram para pouco mais de 40% da área prevista. Apesar disso, as primeiras lavouras apresentam bom estande de plantas e seguem recebendo aplicações para controle de plantas daninhas tanto em pré-plantio quanto em pós-emergência.

Já em Itacurubi, cerca de 30% dos 1.500 hectares projetados foram semeados após as chuvas registradas no final de maio. A região, entretanto, demonstra redução do interesse pela cultura. Muitos produtores têm direcionado suas áreas para a formação de pastagens ou para contratos de arrendamento, buscando alternativas mais seguras diante do atual cenário econômico.

Campos de Cima da Serra aguardam início dos trabalhos

Na região de Caxias do Sul, a implantação do trigo começou de forma pontual nos municípios localizados em menores altitudes.

Entretanto, nos Campos de Cima da Serra, responsáveis por aproximadamente 90% da área regional destinada ao cereal, a semeadura ainda não foi iniciada devido ao calendário agrícola mais tardio. A expectativa é que os trabalhos avancem nas próximas semanas, acompanhando a evolução das condições climáticas.

Frederico Westphalen lidera avanço da semeadura

Entre as regiões acompanhadas pela Emater/RS-Ascar, Frederico Westphalen se destaca pelo ritmo acelerado de implantação. A semeadura já alcança cerca de 80% da área prevista.

As lavouras apresentam desenvolvimento vegetativo considerado satisfatório, beneficiadas pela combinação entre temperaturas amenas e boa disponibilidade de umidade no solo. O cenário é visto como positivo pelos técnicos, que observam um estabelecimento uniforme das plantas e bom potencial produtivo neste estágio inicial.

Ijuí projeta queda de 20% na área cultivada

A região de Ijuí também apresentou forte avanço da semeadura nas últimas semanas. O clima mais seco permitiu maior movimentação das máquinas, enquanto a previsão de chuvas trouxe segurança para os produtores concluírem a implantação das áreas planejadas.

As primeiras lavouras encontram-se nas fases de emergência, emissão das primeiras folhas e início do perfilhamento. Paralelamente, seguem os trabalhos de dessecação e preparação do solo.

Apesar do bom andamento operacional, a expectativa é de redução próxima de 20% da área destinada ao trigo. A menor oferta de crédito rural e o recuo nos investimentos tecnológicos aparecem entre os principais motivos para essa retração.

Outro movimento observado na região é o aumento dos contratos destinados à produção de trigo para etanol, segmento que vem ganhando espaço no mercado e pode representar uma alternativa interessante para diversificação da demanda pelo cereal.

Passo Fundo mantém ritmo dentro da janela ideal

Tradicional polo produtor de trigo, a região de Passo Fundo já implantou aproximadamente 70% da área projetada para a safra.

As lavouras encontram-se em fase de germinação e desenvolvimento vegetativo inicial, apresentando evolução considerada satisfatória pelos técnicos. As condições climáticas registradas até o momento têm favorecido o estabelecimento das plantas e contribuído para o avanço dos trabalhos dentro da janela recomendada.

Santa Maria pode registrar uma das maiores reduções de área

Na região de Santa Maria, os números preliminares apontam para uma das maiores reduções de área cultivada do Estado.

As estimativas indicam queda de até 36% em relação à safra passada. Em Tupanciretã, principal município produtor da regional, cerca de 40% dos 10,9 mil hectares projetados já foram implantados.

O cenário reforça a cautela dos produtores diante dos desafios econômicos e da necessidade de equilibrar investimentos e rentabilidade em uma atividade altamente dependente das condições climáticas.

Santa Rosa enfrenta desafios com custos e pragas

Na região de Santa Rosa, a semeadura alcançou aproximadamente 40% da área prevista.

As lavouras implantadas apresentam boa evolução, favorecidas pela combinação entre umidade adequada e boa incidência solar. O aumento da área foliar e a melhora do aspecto visual das plantas indicam desenvolvimento satisfatório.

Por outro lado, produtores relatam preocupações relacionadas aos custos de produção e ao surgimento de pragas. Em algumas propriedades foram registradas infestações de corós, exigindo monitoramento e medidas de controle para evitar prejuízos futuros.

A redução dos investimentos em fertilização e tecnologia também é uma realidade local. Em determinados casos, agricultores já consideram destinar algumas áreas apenas para cobertura do solo, caso as perspectivas econômicas da produção de grãos se tornem menos atrativas.

Soledade também projeta retração da cultura

Na regional de Soledade, a semeadura atinge aproximadamente 20% da área planejada.

Mesmo com ritmo mais lento, as lavouras implantadas apresentam germinação uniforme e desenvolvimento inicial satisfatório. As condições climáticas têm colaborado para o avanço dos trabalhos, mas a expectativa de redução da área cultivada permanece presente entre os produtores da região.

Trigo segue estratégico para o agronegócio gaúcho

Apesar da perspectiva de retração na área plantada, o trigo continua sendo uma cultura estratégica para o agronegócio do Rio Grande do Sul e para a produção nacional de grãos.

O cereal desempenha papel importante na diversificação dos sistemas produtivos, na cobertura do solo durante o inverno e na geração de renda para milhares de produtores rurais. Contudo, os desafios relacionados ao crédito, aos custos de produção e à rentabilidade deverão continuar influenciando as decisões de investimento ao longo da safra 2026.

Com a semeadura avançando e as lavouras apresentando bom desenvolvimento inicial, o desempenho climático dos próximos meses será determinante para definir o potencial produtivo das áreas cultivadas e os resultados da próxima colheita de trigo no Estado.