O mercado da soja segue em um momento de atenção global, marcado por fatores geopolíticos, clima nos Estados Unidos, custos de produção elevados e mudanças no ritmo de crescimento da área plantada no Brasil. Mesmo com preços relativamente sustentados na Bolsa de Chicago e exportações brasileiras em forte ritmo, produtores começam a adotar uma postura mais cautelosa para a próxima temporada.
Levantamento divulgado pela Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA), referente ao período entre 15 e 21 de maio, mostra que a soja encerrou a semana com valorização moderada no mercado internacional. O contrato da oleaginosa fechou a quinta-feira (21) cotado a US$ 11,94 por bushel na Bolsa de Chicago, acima dos US$ 11,74 registrados na semana anterior.
Apesar de o avanço não ser considerado expressivo, o movimento reforça a sustentação do mercado em um cenário ainda cercado de incertezas. Entre os principais fatores que influenciam as cotações internacionais estão a continuidade dos conflitos no Oriente Médio e o desenvolvimento climático da nova safra norte-americana.
Clima nos Estados Unidos passa a influenciar o mercadoCom o plantio avançando rapidamente nos Estados Unidos, o comportamento do clima passa a ter peso decisivo na formação dos preços globais da soja. Segundo dados citados pela CEEMA, até o dia 17 de maio, os produtores norte-americanos já haviam semeado 67% da área prevista para a safra, desempenho superior à média histórica de 53% para o período.
Além disso, 32% das lavouras já haviam germinado, também acima da média histórica de 23%. O avanço acelerado aumenta a atenção dos investidores e operadores do mercado, já que qualquer alteração climática relevante nas próximas semanas pode provocar fortes oscilações nos preços internacionais.
Historicamente, o mercado climático nos Estados Unidos ganha intensidade entre junho e agosto, período crítico para o desenvolvimento das lavouras de soja e milho no país. Dessa forma, analistas apontam que o comportamento do clima norte-americano tende a ser o principal direcionador das cotações internacionais nos próximos meses.
Mercado brasileiro trabalha com estabilidadeNo Brasil, os preços da soja permaneceram relativamente estáveis ao longo da semana. A combinação entre a leve valorização em Chicago e um câmbio girando próximo de R$ 5,00 por dólar limitou grandes oscilações nas principais regiões produtoras.
No Rio Grande do Sul, as indicações ficaram entre R$ 113,00 e R$ 115,00 por saca. Em outras regiões do país, os preços variaram entre R$ 100,00 e R$ 114,00 por saca, dependendo da logística, da demanda local e da disponibilidade do produto.
Entre as principais praças acompanhadas pelo relatório, Nonoai (RS) apresentou cotação de R$ 115,00 por saca, enquanto Não-Me-Toque (RS) operou a R$ 113,00. No Paraná, Pato Branco registrou R$ 114,00. Já em Campo Novo do Parecis (MT), importante polo produtor do Centro-Oeste, a soja foi negociada a R$ 100,00 por saca.
O comportamento mais estável do mercado interno também reflete a postura cautelosa dos produtores brasileiros, que seguem atentos aos movimentos internacionais e ao ritmo das exportações.
Farelo de soja ganha força no mercado internacionalOutro fator importante que entrou no radar do mercado internacional foi a forte redução prevista nas exportações de farelo de soja da Índia. Segundo a CEEMA, o país asiático deverá reduzir em cerca de 50% seus embarques no ano comercial 2025/26, alcançando o menor volume dos últimos quatro anos.
A retração está ligada ao forte aumento dos preços internos do farelo indiano, que avançaram aproximadamente 47% em abril. Com isso, o produto perdeu competitividade frente aos fornecedores da América do Sul e dos Estados Unidos.
Atualmente, o farelo de soja da Índia está sendo ofertado próximo de US$ 680,00 por tonelada FOB para embarques em junho. Em comparação, fornecedores do Brasil, Argentina e Estados Unidos trabalham com valores próximos de US$ 430,00 por tonelada.
Essa diferença significativa tende a redirecionar a demanda asiática para as Américas, beneficiando especialmente Brasil e Argentina. A expectativa é que as exportações indianas caiam para cerca de 900 mil toneladas, bem abaixo dos 2,02 milhões de toneladas embarcados no ciclo anterior.
Para o Brasil, o cenário pode representar novas oportunidades no mercado internacional de farelo, principalmente em um momento de forte demanda global por proteína vegetal destinada à alimentação animal.
Safra brasileira cresce, mas estiagem impacta o Rio Grande do SulMesmo diante de desafios climáticos em algumas regiões, o Brasil segue consolidando sua posição como maior produtor mundial de soja. O relatório da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 14 de maio e citado pela CEEMA, projeta uma produção de 180,1 milhões de toneladas para a safra 2025/26.
O volume representa crescimento em relação às 171,5 milhões de toneladas colhidas no ciclo anterior. O avanço ocorre principalmente devido à boa produtividade observada em diversas regiões do Centro-Oeste e do Matopiba.
A produtividade média nacional foi estimada em 3.698 quilos por hectare, equivalente a 61,6 sacas por hectare. A área total cultivada no país chegou a 48,7 milhões de hectares.
No entanto, o Rio Grande do Sul voltou a sentir os efeitos da estiagem. O estado produziu 18,6 milhões de toneladas, acima das 16,6 milhões da temporada passada, mas abaixo da expectativa inicial, que ultrapassava 22 milhões de toneladas.
A quebra ocorreu principalmente devido à irregularidade das chuvas durante fases decisivas do desenvolvimento das lavouras. Com isso, a produtividade média gaúcha ficou em 2.769 quilos por hectare, ou 46,2 sacas por hectare, cerca de 25% abaixo da média nacional.
O cenário reforça uma preocupação crescente no agronegócio brasileiro: os impactos climáticos cada vez mais frequentes sobre a produtividade agrícola, especialmente na Região Sul.
Próxima safra deve registrar menor avanço de área em 20 anosUm dos pontos que mais chama atenção no relatório da CEEMA é a perspectiva para a safra 2026/27. Segundo a análise, o Brasil deverá registrar o menor crescimento de área plantada com soja em duas décadas.
A previsão é de expansão de apenas 400 mil hectares no próximo ciclo, número considerado baixo diante do histórico recente de forte avanço da cultura no país.
O principal motivo para esse comportamento mais conservador está na redução das margens de rentabilidade dos produtores. O aumento dos custos de produção, especialmente dos fertilizantes, segue pressionando o planejamento da próxima safra.
Além disso, produtores enfrentam maior cautela em relação ao crédito rural, ao custo financeiro elevado e às incertezas sobre preços futuros da commodity.
Nos últimos anos, o crescimento da soja brasileira ocorreu de forma acelerada, impulsionado pela forte demanda chinesa, pela valorização internacional e pela abertura de novas áreas agrícolas. Agora, o setor entra em uma fase mais seletiva, em que produtividade e eficiência operacional ganham ainda mais importância.
Exportações seguem aquecidasApesar do cenário de margens mais apertadas, as exportações brasileiras continuam em ritmo intenso. Segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), mencionados pela CEEMA, o Brasil deverá embarcar 16,1 milhões de toneladas de soja apenas no mês de maio.
O volume fica muito próximo do recorde histórico registrado em abril, quando os embarques alcançaram 16,2 milhões de toneladas.
No caso do farelo de soja, as exportações devem atingir 2,78 milhões de toneladas no mês, mantendo patamar considerado recorde, mesmo com pequeno ajuste em relação às estimativas anteriores.
A combinação entre forte demanda internacional, competitividade do produto brasileiro e quebra parcial da oferta de alguns concorrentes mantém o Brasil em posição estratégica no comércio global da soja.
Para os próximos meses, o mercado seguirá atento ao clima nos Estados Unidos, ao comportamento do dólar, à demanda chinesa e aos custos de produção no Brasil, fatores que devem definir o rumo dos preços e das decisões de plantio da próxima safra.