O cenário para o setor sucroalcooleiro poderia ser melhor com o esperado
deficit mundial de açúcar a partir de 2015, mas as preocupações ainda
não foram dissipadas. Queda nos preços do petróleo, política cambial e
falta de adoção de mecanismos que deem previsibilidade ao setor são
pontos de preocupação. Somam-se a isso as incertezas do clima.
A avaliação é de Plinio Nastari, da Datagro, empresa que reunirá
especialistas e representantes desse setor em São Paulo, na segunda
(20/10) e na terça-feira (21/10), para discutir o momento difícil,
principalmente no Brasil, e as perspectivas.
Nastari diz que, após quatro anos de uma produção mundial de açúcar
acima do que é consumido, as coisas se invertem. O superavit dará lugar a
um deficit, o que ocorrerá já a partir desta safra de 2014/15 -iniciada
neste mês. Ainda há divergências sobre o tamanho desse deficit, mas
poderá ser de até 3,24 milhões de toneladas, número estimado pela
Datagro.
Esse deficit vai gerar uma redução dos estoques mundiais que, no final
da safra, será de 42,8% do total a ser consumido, abaixo dos 45,6% da
safra que se encerrou. E, sempre que a relação de estoques e consumo
fica em 42%, ou menos, os preços começam a ficar mais firmes, segundo
Nastari.
E quem vai fornecer açúcar ao mundo para suprir esses deficit? O Brasil,
um dos responsáveis pelo superavit que chega ao fim, terá problemas. A
seca deste ano atrapalhou o desenvolvimento do canavial e haverá uma
redução da cana com alta produtividade.
Além disso, a falta de umidade no solo inibiu a renovação dos canaviais.
Nastari prevê que a renovação seja de 13% a 15% das lavouras, mas as
estimativas eram de 17%. Na próxima safra, as usinas não contarão com
tanta oferta extra de cana-de-açúcar que sobra de um ano para outro.
Nesta safra, esse volume foi próximo de 25 milhões de toneladas.
Além disso, a oferta de cana não deverá crescer na safra 2015/16. Ficará
igual à desta ou até menor. A estimativa é de uma moagem de 550 milhões
de toneladas em 2014/15. A Datagro deverá rever os dados da safra deste
ano nesta segunda-feira (20).
Além dos efeitos do clima, as lavouras vão perder rentabilidade no
próximo ano devido à redução dos tratos agrícolas. Os dispêndios com
insumos estão de 28% a 30% inferiores aos do ano anterior, de acordo com
Nastari.
Após uma entressafra prolongada, como vai ser a deste ano, parte das
usinas deverá postergar o início da moagem para obter uma produção maior
da matéria-prima. A reação do setor deverá começar pelo etanol.
Mesmo com a estimativa de deficit mundial de açúcar, o país não retomará
os investimentos imediatamente. Isso só ocorrerá quando houver sinais
de previsibilidade nos mecanismos de reajustes da gasolina e indicações
de que o setor está livre de políticas intervencionistas, afirma
Nastari.
O fundo do poço pode estar passando, mas o amadurecimento dos
investimentos na indústria sucroalcooleiro do Brasil vai demorar de três
a quatro anos. A produção mundial de açúcar é de 170 milhões de
toneladas na safra 2014/15, para um consumo de 173,2 milhões. O Brasil
deverá produzir 35,7 milhões em 2014/15. Desse volume, 32,3 milhões
virão da região centro-sul, segundo dados da Datagro.
*Álcool
Preço volta a cair na cidade de São Paulo
O álcool recuou para R$ 1,853 por litro, em média, nos 50 postos
pesquisados pela Folha em São Paulo. Mesmo com a queda -de 0,7% na
semana-, o valor do etanol se mantém em 65% do da gasolina. Isso porque
há uma boa oferta de gasolina, o que reduziu o seu preço em 0,11%.