A Marfrig, segunda maior processadora de carne bovina do país, atingiu
marcas históricas de abate de gado e de exportações de cortes em julho,
por uma forte demanda e limitações de oferta em países concorrentes do
Brasil, disse nesta quarta-feira o presidente-executivo da companhia.
"Batemos recordes no mês de julho. Foi o maior mês, tanto em exportação
como abate (de bovinos) da história da empresa", disse o
presidente-executivo da Marfrig, Sérgio Rial, em entrevista à Reuters.
A Marfrig abateu mais de 250 mil cabeças de gado em julho, um
crescimento de dois dígitos em relação à média mensal do último
semestre, disse Rial.
Com a forte demanda no exterior, que ajuda a compensar um ritmo
vacilante no consumo no Brasil, a empresa tem elevado a participação de
vendas ao mercado externo sobre o total comercializado a partir do
Brasil.
A fatia do mercado externo nas vendas da Marfrig, que ficou em torno de
40 por cento no último trimestre, subiu para 45 por cento em julho,
incluindo carne industrializada. Considerando apenas cortes in natura
resfriados e congelados, esse percentual é ainda maior, já superando 50
por cento.
O executivo explicou que o Brasil é beneficiado pelo atual cenário de
crescente demanda global, por conta do aumento da renda em países
emergentes, incluindo o Oriente Médio, enquanto tradicionais
fornecedores como Estados Unidos e Argentina enfrentam restrições no
tamanho de seus rebanhos.
As robustas exportações levaram a empresa a aumentar o uso de sua
capacidade instalada rumo aos 80 por cento, contra pouco mais de 70 por
cento anteriormente, revelou Rial.
A operação de carne bovina da empresa, concentrada principalmente no
Brasil, respondeu por quase metade da receita da Marfrig no segundo
trimestre, que somou ao todo 5,1 bilhões de reais. A companhia também
tem operações no exterior --Moy Park e Keystone.
A Marfrig já vinha se preparando para um semestre mais forte na
exportação, ao elevar os investimentos no último trimestre, o que acabou
se refletindo em um fluxo de caixa negativo.
Do capex realizado no último trimestre, de 177 milhões de reais, cerca
de 40 por cento foram destinados às unidades no Brasil, com
investimentos na melhoria de câmaras refrigeradas, aumento de
confinamento, além de ajustes na estrutura de logística.
"O dinheiro foi alocado para preparação da empresa para um segundo
semestre mais ativo, principalmente nas exportações", acrescentou Rial.
PERSPECTIVAS
As exportações, grande fator para os negócios da companhia já neste ano,
podem ganhar ainda mais importância, considerando que a Rússia
habilitou novas unidades da Marfrig; que a China está prestes a comprar
carne diretamente do Brasil --sem passar por Hong Kong; e também com a
possibilidade, ainda que mais incerta, de os Estados Unidos abrirem seu
mercado para a carne in natura brasileira.
A Marfrig teve recentemente oito unidades habilitadas a exportar para a
Rússia, elevando o total para 11, num momento em que os russos buscam
reforçar o fornecimento de outras origens depois do embargo imposto aos
EUA em retaliação às sanções econômicas por causa da crise na Ucrânia.
Rial vê como positiva a ampliação do mercado russo, mas acha que ainda é
difícil dimensionar qual é o impacto da medida em volume ou receita.
"Como o mundo está demandando carne, a Rússia é importante, mas já não é
tão crítica como foi historicamente num momento em que o Brasil tinha
uma série de mercados fechados", ponderou Rial.
O executivo lembrou ainda que existe uma possibilidade de os EUA abrirem
seu mercado à importação de carne bovina in natura do Brasil.
Se isso acontecesse, acrescentou o executivo, México e Canadá teriam de
seguir os EUA, o que teria impacto mais significativo para o setor
brasileiro do que a ampliação da Rússia.
Desde o final do ano passado, os EUA vêm discutindo a possível abertura à
carne in natura de Estados livres de febre aftosa no Brasil. O
executivo ressaltou que esta discussão avançou bastante e espera
resultados favoráveis ainda este ano.
Já a China anunciou a reabertura de seu mercado à carne bovina do Brasil
em meados de julho, e faltam apenas alguns detalhes para as exportações
diretas do país se efetivarem.
Questionado se os embarques para a China já podem ocorrer neste
semestre, Rial afirmou que "sem dúvida" isso já pode acontecer,
acrescentando que serão vistos contratos sendo fechados no mês de
setembro para entrega no quarto trimestre.
Ele disse ainda que a empresa já conta com uma equipe de vendas em Xangai e tem o benefício de ter a Keystone na região.
"Temos duas plantas e temos vendas na China... Temos alguma
infraestrutura e conhecimento local que outras empresas brasileiras não
têm. Então a gente tem a obrigação de fazer melhor", afirmou.
JV NA INDONÉSIA
Ao mesmo tempo, a Marfrig vem avaliando a formação de joint ventures em
mercados promissores como forma de reforçar seu crescimento orgânico, e
não vê espaço para fazer aquisições no momento.
"Esta é uma forma inteligente de crescer sem alterar a estrutura de
capital de forma negativa. Estamos fazendo uma (joint venture), um novo
investimento na Indonésia", afirmou ele, sem dar muitos detalhes.
A empresa já conta com uma operação na Malásia, via Keystone, e está
transferindo pessoal especializado para a Indonésia, onde busca atuar em
carne de frango e bovina.