A soja confirmou, em 2025, seu papel central na engrenagem do agronegócio brasileiro. Mesmo diante de um cenário internacional marcado por preços mais baixos, o complexo soja respondeu por 31,3% de todas as exportações do agro, mantendo-se como o principal vetor de geração de divisas do setor. O desempenho reforça a força produtiva do Brasil no mercado global, mas também revela desafios estruturais importantes, sobretudo relacionados à agregação de valor e à dependência do grão in natura.
Soja lidera exportações do agro em 2025De acordo com dados consolidados da plataforma AgroStat, do Ministério da Agricultura e Pecuária, em conjunto com informações da Secretaria de Comércio Exterior, o complexo soja gerou US$ 52,9 bilhões em receitas externas em 2025, com um volume exportado de 132,8 milhões de toneladas. O montante financeiro representa quase um terço de tudo o que o agronegócio brasileiro vendeu ao exterior no ano, dentro de um total de US$ 169,2 bilhões.
Em termos físicos, a relevância é ainda mais expressiva: o complexo soja respondeu por 48,6% de todo o volume exportado pelo agro nacional, evidenciando o peso da oleaginosa na pauta comercial do país.
Crescimento em volume contrasta com queda de receitaNa comparação com 2024, o Brasil exportou mais soja e derivados, mas faturou menos. O volume embarcado cresceu 7,7%, saltando de 123,3 milhões para 132,8 milhões de toneladas. Já a receita apresentou retração de 1,9%, recuando de US$ 53,9 bilhões para os atuais US$ 52,9 bilhões.
Esse descompasso entre crescimento físico e geração de valor expõe um dos principais dilemas do ciclo recente do agronegócio brasileiro. Para manter um nível de receita próximo ao do ano anterior, o país precisou compensar a queda dos preços internacionais com aumento de volume, estratégia que pressiona margens em toda a cadeia produtiva.
O ambiente global em 2025 foi marcado por uma oferta abundante de commodities agrícolas, além de ajustes na demanda internacional, fatores que contribuíram para a pressão baixista sobre os preços da soja e de seus derivados.
Soja em grão ganha ainda mais espaçoA análise da composição das exportações deixa claro que o crescimento foi puxado, principalmente, pela soja em grão. Em 2024, o produto representava 79,6% da receita do complexo. Em 2025, essa participação avançou para 82,3%, com faturamento de US$ 43,5 bilhões.
Em volume, a predominância é ainda maior. A soja em grão atingiu 108,2 milhões de toneladas exportadas, o equivalente a 81,4% de todo o volume do complexo soja. O desempenho reflete a forte demanda internacional por matéria-prima, especialmente da Ásia, além da elevada competitividade da soja brasileira, sustentada por escala produtiva, ganhos de produtividade e logística relativamente eficiente nos principais corredores de exportação.
Por outro lado, esse avanço reforça a chamada primarização da pauta exportadora, aumentando a exposição do setor às oscilações de preços do mercado internacional e reduzindo o peso relativo de produtos com maior valor agregado.
Farelo perde participação e pressiona a indústriaO farelo de soja, principal derivado industrializado da cadeia, foi o segmento mais pressionado em 2025. Embora o volume exportado tenha se mantido praticamente estável, em 23,3 milhões de toneladas, sua participação na receita total do complexo caiu de 18,0% para 15,0%.
O faturamento do farelo somou US$ 7,9 bilhões, evidenciando uma desvalorização mais intensa em relação ao grão. Esse movimento afeta diretamente as margens da indústria de esmagamento, reduzindo a atratividade do processamento doméstico e reacendendo o debate sobre competitividade industrial no agronegócio brasileiro.
A perda de espaço do farelo sinaliza um desafio estrutural: apesar da grande capacidade instalada, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para ampliar a exportação de derivados em um ambiente global altamente competitivo.
Óleo de soja mostra resiliência estratégicaO óleo de soja manteve-se como um produto de menor escala, mas apresentou desempenho relativamente mais favorável. Em 2025, respondeu por 2,7% da receita do complexo, ante 2,4% no ano anterior, com faturamento de US$ 1,4 bilhão.
O volume exportado ficou em 1,4 milhão de toneladas, cerca de 1,1% do total da cadeia. O ganho de participação financeira, mesmo sem grande expansão física, indica maior sustentação de preços ou captura de prêmios em nichos específicos, como mercados voltados à indústria alimentícia e ao setor de biocombustíveis.
China amplia hegemonia nas comprasNo recorte geográfico, a concentração das exportações segue como uma característica marcante. A China consolidou sua posição como principal destino da soja brasileira, respondendo sozinha por 65,4% do faturamento do complexo em 2025.
O país asiático importou 85,5 milhões de toneladas, gerando uma receita de US$ 34,6 bilhões. Em apenas um ano, as compras chinesas cresceram cerca de 13 milhões de toneladas, reforçando o grau de dependência do Brasil em relação a esse mercado.
Ao mesmo tempo, países do Sudeste Asiático, como Tailândia, Vietnã e Indonésia, ampliaram sua participação, ajudando a compensar a forte retração do Irã, que reduziu pela metade suas importações em relação a 2024.
Os 10 maiores compradores da soja brasileira em 2025O ranking dos principais destinos do complexo soja evidencia a concentração e, ao mesmo tempo, a diversificação gradual dos mercados:
China – 85,5 milhões de toneladas
Tailândia – 6,4 milhões de toneladas
Espanha – 5,9 milhões de toneladas
Indonésia – 3,9 milhões de toneladas
Países Baixos – 3,2 milhões de toneladas
Índia – 928 mil toneladas
Coreia do Sul – 2,0 milhões de toneladas
Vietnã – 2,1 milhões de toneladas
Irã – 2,0 milhões de toneladas
Turquia – 1,9 milhão de toneladas
O balanço de 2025 revela um complexo soja altamente eficiente na geração de volume e essencial para o equilíbrio da balança comercial brasileira. No entanto, a combinação de preços mais baixos, maior dependência do grão e concentração em poucos mercados expõe vulnerabilidades importantes.
O crescimento físico robusto frente à queda de receita indica um cenário de margens mais apertadas e reforça a necessidade de estratégias voltadas à agregação de valor, diversificação de destinos e fortalecimento da indústria de processamento.
Em um contexto global de demanda firme por ração animal e proteína, a soja brasileira segue como insumo estratégico. Ainda assim, os números de 2025 mostram que o desafio do agronegócio não está apenas em produzir mais, mas em capturar mais valor ao longo da cadeia e reduzir a dependência do grão in natura como principal âncora das exportações nacionais.